Sabe aquele ditado popular: “Diga-me com quem andas e eu lhe direi quem és”? Pois bem, vários estudos revelam que esse provérbio tem fundamento científico. E quando se trata de corrida parece não haver dúvidas de que – embora seja um esporte solitário – a frequência e a determinação com que as pessoas praticam têm muito a ver com o grupo no qual estão inseridas. Por isso é cada vez mais comum os grupos de corrida, sejam formais – por meio das assessorias esportivas – ou informais, formados a partir de pessoas que moram numa mesma região ou têm algo a mais em comum além da corrida (amantes de cerveja, por exemplo). É difícil precisar se corremos porque nossos amigos correm ou se procuramos amigos que, assim como nós, gostem de corrida. Talvez as duas vertentes sejam complementares. O fato é que a ciência tem constado esse “contágio”.

Nas últimas duas décadas o cientista político James Fowler, pesquisador da Faculdade de Medicina da Universidade da Califórnia, em San Diego, e seu colega Nicholas Christakis, da Harvard Medical School, de Boston, vêm realizando vários estudos sobre o contágio de hábitos e emoções e um dos coordenadores do estudo. Eles não têm dúvida de que, assim como a saúde, a felicidade (ou a insatisfação) podem ser entendidos como fenômenos coletivos. Como um surto de gripe, a corrida – e também comportamentos que fazem mal à saúde, como sedentarismo, irritação e constantes lamentações – é “transmissível” e “contamina” pessoas a até “três graus de separação”.

Para entender melhor: o fato de o amigo de um amigo seu ser uma pessoa alegre, bem-humorada e satisfeita com a própria vida aumenta em cerca de 6% as chances de que você seja uma pessoa feliz. Isso significa não apenas que é fundamental escolher com cuidado os grupos com os quais convivemos, mas também que, de alguma forma, temos responsabilidade sobre o bem-estar das pessoas com quem moramos, trabalhamos, estudamos… E também sobre a satisfação daquelas que se relacionam com quem nos relacionamos.

A frequência e a determinação com que as pessoas praticam corrida têm muito a ver com o grupo no qual estão inseridas.

Fowler e Christakis reuniram informações a respeito de hábitos ligados ao cuidado de si – como tabagismo, sedentarismo e obesidade –, buscando entender como comportamentos são permeados pelas redes de relacionamento num famoso experimento longitudinal que ficou internacionalmente conhecido como Estudo de Framingham (FHS, do inglês Framingham Heart Study). Em 2000, essa pequena cidade em Massachusetts tinha aproximadamente 70 mil habitantes – vários deles brasileiros, aliás – acompanhados pelos pesquisadores por três gerações. O desafio era destacar os principais fatores de risco para doenças cardiovasculares. Graças a essa pesquisa, nos últimos anos foram acrescentados muitos conhecimentos ao que se sabia sobre diabetes, hipertensão, alterações no colesterol, sedentarismo e tabagismo. Os dois cientistas se deram conta de que ter um parente de primeiro grau com alguma dessas doenças é um fator de risco importante para o desenvolvimento do mesmo quadro não necessariamente em razão da genética, mas em grande parte por causa de hábitos em comum – por exemplo, a corrida.

Ou seja, se a ideia é manter a motivação em alta, melhorar o rendimento nos treinos, aumentar o número de kms percorridos, participar de provas interessantes – tudo isso ou um pouco de cada coisa –, é fundamental se cercar de pessoas que tenham objetivos semelhantes. E há ainda outro lado nessa história: o que você faz, diz, escreve (e até o que pensa) também repercute na vida de outras pessoas. Pois é. Estamos todos conectados. E já que isso é inevitável que a conexão esteja a nosso favor.

Cinco regras importantes de redes sociais
Mesmo que nem sempre as pessoas se deem conta ou admitam, o que ouvimos e vemos pode ter grande repercussão sobre o que pensamos e fazemos. Tendemos a nos tornar parecidos, em muitos aspectos, com as pessoas que acompanhamos, tanto na vida real quanto no universo virtual. Escolher quem queremos seguir, portanto, é importante e pode trazer consequências.

Regra 1: Nos moldamos à nossa rede.
Regra 2: A nossa rede nos molda.
Regra 3: Nossos amigos nos afetam.
Regra 4: Amigos nossos amigos nos afetam.
Regra 5: A rede tem vida própria.

Olhar o outro ajuda a treinar melhor
Um estudo também desenvolvido por cientistas da Universidade de Cambridge revela que observar movimentos feitos por outras pessoas desencadeia impulsos motores. Sob a óptica da psicologia evolucionista isso faz sentido: se um homem pré-histórico via outros correrem, era aconselhável imitá-los sem parar para pensar, pois provavelmente havia um perigo em algum lugar – e fugir era a providência mais urgente a ser tomada. Por outro lado, não haveria praticamente nenhum prejuízo à própria sobrevivência se, por fim, a situação se revelasse inofensiva. Dessa forma a imitação automática pode ter se estabelecido entre nossos antepassados.

Hoje, obviamente, já não precisamos fugir de feras, mas nosso cérebro mantém dispositivos que ainda respondem como no passado. Isso talvez ajude a explicar porque corredores parecem tão gregários, gostam de andar em grupo e treinar em locais onde outras pessoas desempenham a mesma atividade. Mesmo que sejam desconhecidos, outros “colegas de atividade” estimulam o desejo de nos exercitarmos.