
Ando saudosa das trilhas. Tão saudosa que hoje resolvi resgatar o texto que escrevi numa edição do Jornal Corrida há mais de 10 anos, logo após completar minha primeira prova trail. Ele não é sobre trail. É sobre a trilha da vida, repleta de novas possibilidades e valores que a corrida nos oferece...
"Na semana passada decidi estrear nas provas de trilha. Várias coisas me motivaram a encarar a última etapa do Mountain Do. A primeira foi o local: Florianópolis. Tenho um caso de amor mal resolvido com aquela ilha maravilhosa! Conheci a cidade na década de 1990, quando ainda estava na faculdade. Foi amor à primeira vista. O lugar reunia várias qualidades que são fundamentais para mim: natureza, mar, possibilidade de praticar esportes ao ar livre. Terminei a faculdade, fiz as malas e fui pra lá. Morei quase dois anos no sul da ilha. O “namoro” virou noivado, mas não casamento e acabei retornando para São Paulo. Mas o amor persiste e resiste…Por isso, a possibilidade de estrear numa prova de trilha em um lugar tão familiar e querido me animou.
Outra coisa foi o apoio e incentivo de um amigo, que também iria, mas para um desafio bem maior, os 42k do Mountain Do, uma preparação para a prova do Atacama que ele fará em dezembro. Quando resolvi ir, decidi pelo percurso de 22k, mas na vida de quem trabalha com corrida e esporte o que menos tem na rotina é a prática. O último mês foi tomado compromissos profissionais e, para piorar, pequenos sustos com a minha saúde. Duas semanas antes da prova, passei mal durante um treino longo. Na semana anterior à prova, tive um outro mal-estar descendo uma escada. Aí o medo me travou e, na semana do evento, passei entre exames e consultas médicas. Tudo, menos treino.
O cardiologista deu duas recomendações: não fazer os 22k completos e controlar a frequência. Como já não sou mais tão jovem e ainda pretendo correr muitos e muitos kms, obedeci; negociei com a organização e troquei os 22k pelos 8k.
Um tanto quanto ressabiada fiz a mala e parti para reencontrar a minha “ilha da magia”, fazendo aquilo que adoro: correr! Como disse uma amiga: se for para morrer que seja num lugar que você adora, fazendo o que você mais ama. Concordei. Na sexta-feira foi dia de descansar, rever a ilha e participar da expo e coquetel de abertura do Mountain Do Costão do Santinho. Aliás, da recepção – na 6ª. – ao almoço de premiação, no domingo, o evento foi perfeito. Estrutura excelente, staff atencioso. Nada a reclamar. Mas o que importa mesmo é a corrida, certo?
No sábado, primeiro largaram os corredores dos 42k e 22k. Nós, dos 8k, largamos meia hora depois. Saímos da arena montada num resort da praia do Santinho e seguimos rumo à praia. Primeira curva à direita, um descidão, e lá estava ele, azul e maravilhoso: o mar! Foram quase 2k pela areia da praia até entrarmos pelas dunas ao pé do morro e cruzarmos em direção à praia dos Ingleses.
Apesar do toró que caiu na noite anterior, o dia estava lindo: sol e céu sem nuvens. Com o calor e a areia, difícil era manter a frequência indicada pelo médico…Mas até aí estava controlável. O perrengue começou no pé do morro, com a trilha pelo meio do mato (imagens do percurso fotos abaixo). Acostumada a ver e editar fotos de eventos, no meu sonho de consumo o percurso teria dunas (ok!), subidas (ok!), mato (ok!). Mas era mais que isso. Foram quase 3 quilômetros pelo morro, subidas e mais subidas, pedras e lama. Muitas pedras e lama.
De olho no frequencímetro fui me distanciando e ficando sozinha pelo caminho logo no início da trilha no morro. Como tinha sugerido o Arthur ao cruzar comigo ainda na praia (quando ele voltava rumo aos seus 42k), iria curtir a prova, o percurso, o cenário. Quando completava quase 1 km que eu estava na trilha, subindo o morro e – quase que literalmente – escalando pedras, um barulho me chamou a atenção: tum, tum, tum….Cadenciado, ritmado. Bicho urbano que sou, num primeiro momento achei que fosse algum animal pelo mato. Mais um pouco à frente e de novo: tum, tum, tum….Aí parei. Olhei em volta; nada, nem ninguém. Eu estava sozinha no meio da mata úmida, fria, mas exuberante, cheirosa. Por entre as árvores dava para ver a praia… e de novo: tum, tum, tum…Aproveitei que parei, fiz uma foto e olhei no frequencímetro para conferir.
Foi ai que o tum, tum, tum fez sentido: era a batida do meu coração. Naquele silêncio e solidão da mata eu conseguia ouvir meu próprio coração batendo! Uauuu! Isso nunca tinha acontecido comigo. Primeiro veio um medo (E se acontece alguma coisa, aqui nesta trilha agora? Estou perdida! Vão demorar para me achar, me resgatar!). Segundos depois, o medo cedeu lugar a uma sensação tão boa… Senti-me plena, em profunda integração com meu corpo, minha mente e a natureza. E foi assim, ao som da batida do meu coração que percorri mais 2 km de trilha pela mata, subindo morro, entre lama, pedras e árvores.
Quase no final do caminho, ganhei a companhia de uma corredora de Goiânia, que havia parado por se sentir mal, e do Júnior, o socorrista. Ele estava mais a frente, de prontidão no ponto mais crítico da trilha: um “tobogã” de uns 60 cm de largura e uns 2 metros de comprimento, à base de pedra e lama, mais liso do que sabão. Ali, apoiado numa árvore, ele ficou dando suporte para todos os corredores que passaram, garantindo que ninguém se machucasse.
Cansada, mas feliz e grata pela experiência, sai da trilha e cai na praia, rumo à arena de chegada. Foram os 8Km mais intensos e inesquecíveis, em décadas de corridas.
A lição: ouvir e seguir meu coração. Ouvi meu coração quando decidi trocar a Meia do Rio por Floripa e correr minha primeira prova de trilha. Ouvi meu coração quando resolvi trocar o percurso de 22 pelo de 8 (depois soube pela organização que o de 22 e o de 42 não passavam pela trilha de 3 km subindo o morro, no meio do mato) e tive uma experiência maravilhosa naquele percurso. Ouvi meu coração quando resolvi largar tudo e investir no Jornal Corrida (que neste mês completa 5 anos). Ouço o meu coração todos os dias quando ele me diz: vai, vai por aí, continua a investir no Jornal Corrida, este projeto que tem por objetivo motivar e incentivar cada vez mais pessoas a viverem mais saudáveis pela prática da corrida.
Corrida para mim é isso: ouvir o meu coração! Gosto muito de uma frase de uma atleta em que ela fala: “A corrida me conecta com a alma do universo”. Hoje, acho que a corrida é mais que isso. Ela me conecta com a alma do universo, com meu coração e com a minha alma…"
Há décadas sigo ouvindo meu coração, na corrida, no Jornal Corrida, na minha vida. Mesmo quando a "poluição sonora" do mundo a minha volta, repleta de fakes, views e hatters, é ensurdecedora!
Hoje o Jornal Corrida tem mais de 15 anos. Seguimos buscando orientar, motivar, levar informações para o maior número de pessoas possível para que usam da corrida como uma ferramenta de saúde física e mental. E eu? E sigo correndo, não tanto quanto no passado mas feliz e grata por tudo que a corrida me proporciona!
Bons treinos, boa corrida a todos!